indymedia.pt

 

 


 

 


Indymedia is an outlet for the creation of radical, accurate, and passionate tellings of truth. Don't hate the media, become the media!

Got something to report? Need to get out photos, audio, or video? Publish it here.
HOME > Solidariedade com Cláudia Simões e todas as vítimas de violência policial

SOLIDARIEDADE COM CLÁUDIA SIMÕES E TODAS AS VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA POLICIAL Sep 9 2024

by Publicação Comunitária

Em 2020, Cláudia Simões foi brutalmente violentada pela polícia em frente à sua filha então com 8 anos, numa paragem de autocarro na Amadora. Chegados a 2024, o sistema de justiça português considera-a culpada dos seus próprios ferimentos e daqueles que, para se defender, infligiu ao agente Carlos Canha, sendo condenada a oito meses de pena suspensa e o agente ilibado. Este é mais um exemplo paradigmático do racismo institucional na polícia e tribunais portugueses.

O caso chegou à opinião pública através de vídeos publicados nas redes sociais que mostravam Carlos Canha em cima de Cláudia Simões, já com vários ferimentos, a fazer-lhe uma chave de pescoço, mas a violência haveria de continuar nas horas seguintes. Em tribunal, a juíza Catarina Pires frisou que “ninguém fez mal a Cláudia Simões” e que “o choro da sua filha é à mãe que se deve”. Enfatizou ainda que não havia ali motivações racistas e que esperava que a decisão do Tribunal servisse para “pacificar” estas perceções.

A violência sobre Cláudia Simões e a sua filha gerou um forte debate público sobre o racismo e a xenofobia nas forças de segurança e no sistema judicial, contribuindo para evidenciar a injustiça vivida perante agressões e mortes de pessoas negras, ciganas, imigrantes e pobres às mãos da polícia. Disso são exemplo, casos recentes com o da Esquadra de Alfragide (2015) e do Bairro da Jamaica (2019), da morte de Ihor Humenyuk no centro de detenção do SEF no aeroporto de Lisboa (2020), a violência sobre migrantes, no posto da GNR de Odemira (2021), a morte de Danijoy Pontes e de Daniel Rodrigues, no Estabelecimento Prisional de Lisboa (2021), e de Miguel Cesteiro, na cadeia de Alcoentre (2022), a condenação do ativista antirracista Mamadou Ba (2023).

Em nenhum destes trágicos acontecimentos, tal como no de Cláudia Simões, o racismo e a xenofobia foram tidos em conta, como, aliás, em Portugal, nunca o são. A taxa de arquivamento de queixas apresentadas por racismo e xenofobia ronda os 80% e só 7,5% levam a condenação (2006-2016). Sabemos que não é por acaso que as pessoas racializadas e imigrantes são mais encarceradas e mortas pela polícia, consequência do cerco que lhes é feito através das chamadas “Zonas Urbanas Sensíveis” (ZUS), do artigo 250.º do Código do Processo Penal e do aparato legal que sustenta a Europa Fortaleza.

Nos dias seguintes ao espancamento de Cláudia Simões, o então diretor nacional da PSP, Magina da Silva, afirmou tratar-se apenas de “um polícia a cumprir as suas obrigações e as normas que estão em vigor na PSP”. O Sindicato Unificado da Polícia de Segurança Pública, cuja liderança tem ligações à extrema-direita, já noticiadas em vários órgãos de comunicação social, insinuava nas suas redes sociais que Cláudia Simões poderia ter transmitido doenças ao agente Carlos Canha quando o mordeu para se defender. Após a sentença condenatória de Cláudia Simões, o líder do partido de extrema-direita haveria de continuar a capitalizar o caso, acicatando o ódio racial e xenófobo na polícia.

É preciso lembrar que, após agredir Cláudia Simões, o mesmo polícia havia de espancar, dentro da esquadra, dois homens negros – Quintino Gomes e Ricardo Botelho – que, entre a multidão, haviam presenciado o que se passara na paragem de autocarro. Por essas agressões, Carlos Canha seria condenado a três anos de pena suspensa e ao pagamento de indemnização por ofensa à integridade física qualificada e sequestro. Os outros dois agentes que o acompanhavam – João Gouveia e Fernando Rodrigues – nada viram, nada fizeram e, portanto, não foram condenados.

Porque teria ele agredido aqueles homens, mas não Cláudia Simões, afinal de contas, a pessoa central naquele caso? Em declarações que nos envergonham a todos, o Tribunal diz que o agente “descomprimiu” os nervos acumulados antes, durante a detenção de Cláudia Simões, naqueles dois homens. Durante as audiências no Tribunal os magistrados – do Ministério Público ao coletivo de juízes – acusaram Cláudia Simões de ser uma pessoa “arrogante”, “exagerada”, “impetuosa”, “não colaborante”, “exaltada”, “revoltada”, “possante”. A humilhação foi tal que Cláudia Simões teve de mostrar várias vezes a sua cabeça para demonstrar que o agente lhe havia arrancado o cabelo, mesmo existindo documentos médicos a comprová-lo.

No fecho da leitura do acórdão, o Tribunal considerou ainda relevante dirigir-se ao movimento antirracista e à opinião pública em geral, como já havia feito um dos advogados dos agentes, dizendo que a comoção era derivada de “falsas assunções” construídas num quadro de “idiossincrasias”, “mundividências” e “preconceitos”, portanto, a falsa tese do racismo reverso, contra polícias.

Sabemos que a polícia e os Tribunais estão institucionalmente desenhados para exercer o monopólio da violência sobre pessoas racializadas, imigrantes e pobres. A nossa luta não se move pela esperança de que o Estado reconheça o racismo que o constitui; mas pela dignidade de nos mantermos de pé e audíveis sobre as injustiças e hipocrisias de um sistema que se diz justo. Move-nos a necessidade de continuar a luta antirracista dos nossos antepassados, do nosso presente e futuro.

Apelamos a todas as pessoas, coletivos e demais forças da sociedade portuguesa e comunidade internacional que se juntem a nós na exigência de revogação da sentença e de reparação da violência infligida pela polícia e pelo sistema judicial a Cláudia Simões. Neste momento, em que ela se prepara para recorrer da decisão, a solidariedade de todes é indispensável, com Cláudia Simões e com todas as vítimas de violência policial e do estado.

Apelamos a TODES a participar na Manifestação JUSTIÇA POR CLÁUDIA SIMÕES E TODAS AS VÍTIMAS DA VIOLÊNCIA POLICIAL, no dia 14 de Setembro, a partir das 16 horas. O percurso começará no Estabelecimento Prisional de Lisboa, marcando os 3 anos das mortes ainda sem explicação de Danijoy Pontes e de Daniel Rodrigues, e prosseguirá até ao Martim Moniz.

Coletivos signatários:

Afrolink

Afrolis 

Associação Cavaleiros de São Brás

Associação Sendas e Pontes

Baque do Tejo

Batoto Yetu Portugal

Buala

Casa do Brasil de Lisboa 

Coletivo Afrontosas

Consciência Negra

Djass &8211; Associação de Afrodescendentes

Femafro &8211; Associação de Mulheres Negras, Africanas e Afrodescendentes em Portugal 

Grupo EducAR

GTO LX

INMUNE &8211; Instituto da Mulher Negra em Portugal

Khapaz &8211; Associação Cultural

Mulheres Negras Escurecidas 

Muxima Bio BV

Nêga Filmes &8211; Associação Cultural 

Núcleo de Imigrantes das Belas Artes da Universidade do Porto

Peles Negras, Máscaras Negras

FAIASCA-P &8211; Federação das Assoc. de Imigrantes e Amigos do Setor de Calequisse em Portugal 

Plataforma Geni

Opus

Renovar a Mouraria

SaMaNe &8211; Saúde das Mães Negras e Racializadas em Portugal 

Solidariedade Imigrante-Associação para a defesa dos direitos dos imigrantes

SOS Racismo

Teatro GRIOT

The Blacker The Berry Project

UNA &8211; União Negra das Artes

Vida Justa

Vozes de Dentro

https://www.buala.org/pt/a-ler/solidariedade-com-claudia-simoes-e-todas-as-vitimas-de-violencia-policial


« Back to home